sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Os aviões do Filósofo

Em uma conversa que gravei com ele na casa onde mora, em Londres, o filósofo suíço Alain de Botton contou que, quando está passando por uma daquelas fases de angústia e insatisfação a que todos nós estamos sujeitos, inclusive os filósofos, ele costuma ir ao aeroporto de Heathrow para observar a movimentação de aviões e passageiros. Segundo de Botton, ao ver os aviões decolando e aterrissando, e as pessoas chegando e partindo, ele se lembra do quanto o mundo é cheio de possibilidades: lugares que não conhecemos, pessoas que nunca encontramos, histórias para serem vividas, novas chances, novas paisagens…
Essa constatação faz com que ele volte para casa mais preparado para entender o que está vivendo e, eventualmente, para sair do imobilismo em que os estados sombrios costumam nos fazer mergulhar.

Nada mais saudável do que essa mudança de foco. Às vezes, precisamos reeducar o olhar, exercitar a visão que se acostuma a, preguiçosamente, contemplar as mesmas imagens. Quando olhamos o mundo pela mesma perspectiva, nossa percepção vai se afunilando.
Passamos a enxergar nossos problemas de forma distorcida, a ter uma interpretação limitada da nossa própria realidade. Viajar é uma das maneiras de combater esse olhar viciado. Mas não é preciso atravessar países e continentes para aguçar a visão, nem é necessário se deslocar até o aeroporto mais próximo. Às vezes, basta pegar um caminho diferente na hora de ir para o trabalho, mudar a janela de casa de onde se costuma olhar a rua, ler o livro de um autor que nunca lemos, ver um filme que sacode nossas crenças, conversar com alguém que nos faz pensar.

É muito fácil nos acomodarmos numa vida que não nos preenche e acumular frustrações como se fossem inevitáveis. Quando paramos de olhar para os lados, acabamos estacionando ou criando raízes na infelicidade. Às vezes, um acontecimento inesperado nos arranca dessa inércia existencial: uma perda, uma doença, uma mudança de planos – tudo isso pode nos fazer enxergar melhor. Mas talvez o ideal mesmo seja avaliar a visão periodicamente, em vez de esperar até que algo nos atropele, confronte nossas convicções e nos obrigue a sair do lugar.

Ler mais, conversar mais com quem nos questiona, observar o deslocamento dos aviões ou dos pássaros, abrir janelas, aprender uma língua, fazer uma longa caminhada em silêncio, meditar… São infinitas as possibilidades para ampliar nosso foco, aguçar nossos sentidos e, eventualmente, nos ajudar a enfrentar circunstâncias de vida e estados de espírito que podem parecer incontornáveis.

Por Leila Ferreira



Nenhum comentário:

Postar um comentário