terça-feira, 23 de dezembro de 2014

É possível liderar com alegria e eficácia


A busca pela felicidade acompanha toda a evolução da humanidade e isso faz com que milhares de pessoas trilhem por caminhos conhecidos e até mesmo os considerados como "incógnitas". Hoje, o ser humano "luta" diariamente por objetivos de vida que o faça ter um estado de espírito que o permita sentir-se realizado tanto no campo pessoal quanto profissional. Em seu novo livro "A Perfeita Alegria - Francisco de Assis para Líderes e Gestores, Editora Vozes, o consultor organizacional e escritor Robson Santarém enfatiza as ações que o religioso italiano, nascido no século 12, deixou e que podem ser usadas como exemplo pelos líderes da atualidade.
"O foco do meu novo trabalho está na liderança da equipe e como Francisco de Assis construiu uma comunidade sólida que permanece viva e que tem como uma das principais características a alegria", menciona Robson Santarém, ao destacar o sentimento de júbilo com que o franciscano conduzia suas atividades. Vale ressaltar que Santarém abre espaço, ainda, para a felicidade no âmbito organizacional e a importância dos gestores frente aos seus liderados, não apenas no comando dos trabalhos, mas também no estímulo que eles podem dar às suas equipes a cada dia.
"Diante de um mundo que vive com tantos indicadores de tristeza, é preciso rever alguns modelos de gestão de modo a criar organizações saudáveis e sustentáveis onde todos se sintam realizados e felizes", defende o consultor. A entrevista concedida ao RH.com.br por Robson Santarém, é uma ótima oportunidade para que sejam revistos paradigmas e atitudes aplicadas no dia a dia das empresas. Boa leitura!

RH.com.br - Em 2007, o senhor escreveu "Autoliderança: uma jornada espiritual", com base nos ensinamentos de Francisco de Assis. Recentemente, o senhor, lançou o título "A Perfeita Alegria - Francisco de Assis para Líderes e Gestores". Qual o diferencial entre as duas obras?
Robson Santarém - A obra anterior enfatizou a importância do líder em primeiro lugar aprender a liderar a si mesmo e se tornar um ser humano melhor para liderar pelo exemplo. Assim, trilhando o processo de individuação estudado por Carl Jung, pude perceber como Francisco viveu esse processo e se tornou um ser humano singular e com certeza absoluta um grande líder servidor, tanto que foi escolhido no ano 2000 como o homem do milênio. Agora, no meu novo trabalho, o foco está na liderança da equipe, como ele construiu uma comunidade sólida que permanece viva e atuante há oito séculos e que tem como uma das principais características a alegria. Ele próprio é considerado o homem alegre. O que fez e que legado ele deixou que nós permitem aprender e aplicar em nossas organizações de modo que nos possibilite criar um ambiente de alegria, já que essa é uma busca do coração humano? Não tenho dúvidas que a sua experiência com líder tem muito a contribuir, seja na maneira detratar os seus liderados, seja na definição de uma missão, objetivos e regras claras para todos.

RH - Por que manter os ensinamentos de Francisco de Assis como base para seu trabalho?
Robson Santarém - Na verdade a base do meu trabalho e o meu propósito de vida são o de contribuir com a humanização das organizações e assim promover um desempenho superior e uma contribuição também para o mundo. Francisco é um grande arquétipo de um ser humano por excelência e sua experiência, seus ensinamentos, sua forma de liderar e mobilizar as pessoas para uma causa continua, ainda hoje, após 800 anos, a inspirar milhões de pessoas. Em toda a Terra ele é reconhecido como um ser humano iluminado e, portanto, iluminador. Os grandes homens e mulheres da humanidade devem servir de inspiração e referência para todos nós. Quero dizer com isso que eles e elas abriram e trilharam um caminho possível de também ser trilhado por nós. Você não acha que isso é suficiente para nos provocar como nós estamos vivendo a nossa vida? E também não poderíamos refletir como estamos liderando as pessoas em nossas organizações? Eu acho impossível não nos deixarmos contagiar por esses grandes seres humanos como Francisco de Assis.

RH - Quais as principais reflexões que o senhor oferece aos líderes, através dessa nova obra?
Robson Santarém - Em primeiro lugar penso que é importante entender o que é alegria. Muitas vezes é confundido com o prazer e realização de desejos imediatos. Na verdade a alegria, no entendimento de Spinoza, Erich Fromm e tantos outros, é muito mais um estado de espírito do ser humano evoluído, que encontra a sua razão de ser e por isso, como emoção, é capaz de manter a pessoa vitalizada, energizada para sempre crescer mais. Francisco de Assis tem um relato onde descreve o que é a Perfeita Alegria, e, como a observamos independe de qualquer coisa, está de fato no coração humano quando se assenta em valores espirituais. Outro aspecto essencial é rever os nossos modelos mentais, estou certo que ainda hoje há resistências para se tratar desses temas - alegria, espiritualidade, afeto entre outros - no ambiente de trabalho. Entretanto, o paradigma que impede aceitar isso é o mesmo que tem gerado tanto sofrimento humano e ao planeta. Entendo que Francisco fez uma grande ruptura nos modelos mentais de sua época e nos provoca a fazer o mesmo, na forma como compreendemos a vida, a nós mesmos e a nossa relação com todos os seres, com o universo e com o Transcendente. Quando fundou as três ordens religiosas, ele soube definir com clareza seus objetivos e suas regras. Sua liderança mobilizou milhares de pessoa em toda a Europa. Ora, isso tem muito a nos dizer, principalmente quando pensamos na responsabilidade dos líderes em criar e manter uma cultura organizacional que favoreça o alcance dos objetivos. Enfim, é sobre tudo isso que estou tentando passar para os leitores.

RH - O líder pode ser considerado o ponto de ligação entre o ambiente organizacional e a alegria?
Robson Santarém - O líder é o principal responsável pelo ambiente organizacional, a sua forma de liderar vai impactar diretamente na motivação dos liderados, no comprometimento e no orgulho de fazer parte daquela equipe, daquela organização. Sua responsabilidade passa pela direção que ele dá aos liderados, por ser uma referência para todos - principalmente pelo seu caráter que gera credibilidade, admiração, confiança -, pela maneira com que cuida dos relacionamentos e gera o compromisso com os resultados esperados, entre tantas outras atribuições. Mas sem dúvida, precisamos sempre lembrar que o líder lidera gente, e por isso precisa saber, entender e gostar de trabalhar com pessoas. Ora, é possível obter resultados de muitas maneiras - a história tem a muito a dizer sobre isso - mas não se pode negar que alcançar resultados, metas em um ambiente onde se vive a alegria é extremamente melhor.

RH - Um ponto extremamente trabalhado na sua obra é a valorização da alegria no ambiente corporativo. Por que as empresas devem se preocupar com a felicidade?
Robson Santarém - Porque estamos descobrindo que estamos vivos e queremos ser felizes em todos os lugares e em todo o tempo. Sabe aquela pesquisa feita pela professora Betânia Tanure e sua equipe que descobriu que cerca de 84% dos executivos são infelizes? Você não acha que esse índice é assustador? São homens e mulheres que estão no topo da pirâmide organizacional, muito bem remunerados e que chegam a um momento da vida e descobrem que se dedicaram tanto ao trabalho, à carreira mas, esqueceram da felicidade. Isso é triste, muito triste. E não tenhamos dúvidas que pessoas infelizes não geram alegria ao seu redor. Pois essas pessoas estão exercendo funções executivas e lideram outras pessoas. Já pensou? Não quero dizer que as empresas devem se preocupar com a felicidade como se fora esse o seu negócio, elas não são organizações de serviço social, templos ou qualquer coisa semelhante. Mas não hesito em dizer que toda organização pode e deve buscar atingir os seus objetivos de modo que todos os seus colaboradores e demais interessados no negócio sintam-se felizes em participar dele, porque sentem que estão evoluindo como pessoas, como profissionais e que através de suas competências estão contribuindo também para que o mundo seja melhor. Esse é outro aspecto fundamental: as empresas, todas, têm uma responsabilidade que transcende os seus muros, os seus negócios. Elas existem para servir à sociedade. Não podemos fechar os nossos olhos para essa responsabilidade social e ambiental.

RH - Qual a sua percepção sobre uma empresa verdadeiramente feliz?
Robson Santarém - Eu diria que é aquela cujos dirigentes estão conscientes e imbuídos de suas responsabilidades, que procuram ser coerentes com os valores que afirmam ter e procuram traduzir tudo isso em políticas, diretrizes que contribuem para a realização da sua missão e sua visão, lembrando que um principio essencial é o respeito à dignidade humana e ao bem comum. Cada organização vai definir os seus meios para fazer isso. No meu novo livro, conto três experiências de empresas que estão investindo na alegria: o ECAD, organização onde desenvolvi um trabalho de consultoria e coaching para todos os seus executivos e gerentes; a Casa do Cliente, premiada empresa de comunicação e marketing e a Light, empresa de energia do Rio de Janeiro que colocou a alegria como um dos seus valores corporativos. E já descobri outras organizações que estão caminhando nessa direção.

RH - A alegria também busca base na cultura organizacional?
Robson Santarém - A cultura é a alma da empresa, é a sua personalidade. Quando a cultura é sólida, baseada em valores humanos, ela vitaliza o corpo e lhe garante energia suficiente para viver, crescer e contribuir com todos com quem se relaciona. Os estudos comprovam que as melhores empresas, as mais longevas são aquelas que investem na cultura e gestão por valores, pois assim, conscientemente percebem-se como organismos vivos, comunidades que se fazem nos relacionamentos construídos ao longo de sua existência. Por isso, dediquei um capítulo a esse tema: Cultura de Valores, Clima de Alegria. O clima como resultado da cultura.

RH - Na sua visão quais os principais entraves que cruzam o caminho da felicidade nas empresas?
Robson Santarém - Infelizmente, ainda são muitos os indicadores para demonstrar que há muito por fazer. Se olharmos para o que está acontecendo no planeta, nas cidades, vamos constatar o quão responsáveis são as empresas e seus dirigentes. Além disso, é alto o índice de assédio moral e sexual, estresse, Burnout, dependência química, entre outros. Vimos em noticiário recente o caso assustador da quantidade de suicídios que aconteceram em uma empresa na China, lembra? Pois, isso acontece também por aqui. Não podemos nos esquecer dos tristes casos de corrupção, fraudes e tantos outros escândalos. Não é mesmo?

RH - A alegria nas empresas está intimamente relacionada à espiritualidade?
Robson Santarém - Conforme mencionei anteriormente, o nosso entendimento da alegria está relacionado sim a uma forma de viver a vida e não aos prazeres. Logo, para mim, está relacionado sim à espiritualidade. Pois implica em sabedoria de vida, em ser resiliente, ter equilíbrio emocional e espiritual frente aos desafios, às pressões e até mesmo frente às desventuras da vida. A empresa é mais um espaço onde vivemos, e se queremos ser felizes, também queremos e precisamos ser nesse espaço. Nas empresas, a espiritualidade está relacionada à forma como vive os seus valores, com o sentido e o propósito da organização e sua contribuição ou legado para a vida das pessoas e para o planeta. Veja, por exemplo, o Pacto Global - a parceria que reúne a ONU, empresas e tantas outras instituições - como está pleno de valores espirituais, assim como os objetivos do milênio. Quando uma empresa percebe que isso é importante e se compromete com essa causa, certamente vai promover transformações na sua maneira de liderar e de cuidar do seu relacionamento com os demais stakeholders. Dessa forma, também podemos perceber a alegria nas organizações.

RH - Apenas para não pairar qualquer dúvida: religião e espiritualidade confundem-se?
Robson Santarém - Essa questão sempre surge. Eu digo que toda religião tem a sua espiritualidade e até mesmo mais de uma. Por exemplo: nós falamos de uma espiritualidade cristã, mas dentro do cristianismo identificamos diversas espiritualidades como a franciscana, a jesuíta, a beneditina, a pentecostal, a luterana. E podemos, infelizmente, encontrar dentre as pessoas religiosas aquelas que não desenvolveram uma espiritualidade. Não deveria ser assim. Aqui estamos compreendendo a espiritualidade como a relação do ser humano com o "Transcendente" e que o leva a viver a vida, segundo esse mesmo espírito em todas as suas dimensões. Por outro lado, entende-se que é possível desenvolver uma espiritualidade sem ter um vínculo com uma religião, quando se procura viver a vida de acordo com valores humanos, com os princípios universais, quando se busca um sentido para a vida e se preocupa com o legado que vai deixar, essas são questões de ordem espiritual. De qualquer modo, considero que a espiritualidade é o caminho para que nos tornemos melhores seres humanos e assim também fazer com que o nosso mundo seja melhor, nossas famílias e nossas organizações.


Nenhum comentário:

Postar um comentário